Forjães e o Estreio de Ormuz

Há palavras que, numa espécie de passe mágico, parecem ganhar vida de um dia para o outro e passam a “andar na boca do mundo”. Se há 6 anos vimos isto com o termo “COVID”, hoje todos ouvimos falar no Estreito de Ormuz? Mas como se liga Ormuz a Forjães?

Para percebermos esta ligação, temos que voltar à escola!!

O que lhe propomos, então, é uma viagem no tempo. Vamos viajar até 25 de setembro de 1507, com uma paragem prévia, obrigatória, em 23 de dezembro de 1934.

 

Escola Primária Rodrigues Alves de Faria e os painéis de azulejo de Jorge Colaço

Comecemos por 23 de dezembro de 1934, data que marca a inauguração da Escola Primária Rodrigues Alves de Faria, localizada em plena zona central de Forjães, no concelho de Esposende. O edifício, integralmente financiado pelo benemérito forjanense António Rodrigues Alves de Faria, na época, considerado um dos melhores do país, contando com instalações modernas, destacando-se, entre outros, um auditório e um recreio coberto, que hoje corresponderia a uma espécie de ginásio, atual espaço multiusos.

Mas a riqueza desta estrutura arquitetónica única estava também nas suas paredes, onde foram aplicados imponentes painéis de azulejos, pintados pelo Mestre Jorge Colaço, tendo como mote episódios marcante da história de Portugal, enquadrados a partir na narrativa d´Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, o que os torna ainda mais significativos.

Um desses painéis, instalado na atual Sala Professora Maria Irene Faria do Valle, representa precisamente D. Afonso de Albuquerque e a Tomada de Ormuz, em 25 de setembro de 1507.

A pintura, a azul-cobalto, com uma moldura, é formada por 168 azulejos, estando a sua produção datada de 11 de maio de 1933.

Para efeitos de enquadramento deste painel, que preenche o alçado Norte da sala da Biblioteca, consideremos, n´Os Lusíadas, o Canto X, estância 40, que refere “Esta luz é do fogo e das luzentes /Armas com que Albuquerque irá amansando/ De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,/Que refusam o jugo honroso e brando.”, sendo que também o historiador esposendense Albino Penteado Neiva o enquadra nos seguintes termos: “Albuquerque entrava no porto de Ormuz, precedido pela fama e pelo terror dos seus feitos. Os Capitães das naus, vendo a grandeza da cidade, a infinidade de navios que coalhavam o porto e a muita gente de cavalo que acedia à praia ficaram assombrados e dirigiram-se ao Capitão-Mór, fazendo-lhe ver quam temerária e arriscada era a empresa de acometer a terra e aquela armada”.

Vamos perceber, então, quem foi Afonso de Albuquerque e a importância da Tomada de Ormuz, representada no painel de azulejos, que coloca Forjães em linha direta com o Estreito de Ormuz. O seu bloqueio, como tem sido referido na comunicação social, retirou do mercado cerca de 300 milhões de barris de petróleo, volume equivalente a quase três dias de consumo mundial. Devido ao cenário de guerra com o Irão, também os Países do Golfo reduziram drasticamente sua produção, enquanto refinarias na Ásia operam com capacidade limitada diante da escassez, impactando, de forma crescente, a economia mundial-

 

Ormuz: muito mais do que uma ilha

Ormuz é uma importante cidade marítima (ilha), e um ponto estratégico no Golfo Pérsico, dando também nome ao estrito mais importante no Médio Oriente. No século XVI passavam ali as rotas comerciais entre a Ásia Central, o Índico e o Mediterrâneo, sendo que Portugal quis assegurar o domínio daquela área, fortificando a cidade. Situado na boca do Golfo Pérsico, entre o Irão e Oman, Ormuz ainda conserva o forte português criado por Afonso de Albuquerque em território persa. Na imagem representada por Jorge Colaço é visível, ao fundo, a imponente fortaleza, que também ilustramos no seu estado atual.

A ilha de Ormuz será, provavelmente, a ilha com posição mais estratégica do mundo, e já o era no século XV. Hoje é determinante nas rotas do ouro negro (petróleo), sendo que, outrora, desempenhava um papel determinante nas rotas comerciais de especiarias, o que motivou a atenção dos portugueses, destacando-se a ação de Afonso de Albuquerque.

 

Afonso de Albuquerque e a ilha de Ormuz

A escolha da localização estratégica da cidade (no estreito de Ormuz e à entrada do Golfo Pérsico) deve-se um português com visão e coragem: Afonso de Albuquerque.

Apenas 9 anos após a descoberta do caminho marítimo para a Índia, Afonso de Albuquerque cercou e conquistou uma ilha de 42 quilómetros quadrados, ao largo da costa, na altura já um entreposto comercial fervilhante de atividade.  O seu plano era controlar a entrada e saída de embarcações no Golfo Pérsico e dominar, desta forma, as rotas comerciais entre a Índia e o norte de África e a Pérsia.

Neste sentido, Afonso de Albuquerque ordenou a construção de um imponente forte, em Ormuz, que se concretizou em 1515, e durante mais de 100 anos, Portugal foi a potência estrangeira dominante na região, com uma administração hábil, tolerante em termos religiosos e resistindo militarmente aos avanços do império otomano.

Afonso de Albuquerque (1453-1515) foi um líder militar de grande prestígio. A ele se deve o desenho da política de expansão portuguesa no Oriente, até 1521, tendo sido responsável pelo fomento das relações políticas que permitiriam cimentar as bases para o Império Português.

Afonso de Albuquerque foi o conquistador de Goa, tendo começado a sua carreira militar nas guerras com Castela e nos combates que aconteceram nas praças de Arzila e Larache. Os seus maiores feitos de armas ficariam registados, no entanto, no Oriente. A ele se deve, também, a fortaleza de Cochim e conquista Omã e Malaca. Foi nomeado Vice-rei da India por D. Manuel.

 

A conquista de Ormuz

A conquista de Ormuz desenrolou-se em duas fases: (I) em 1507, Afonso de Albuquerque, Vice Rei do Estado Português da Índia, após derrotar as forças defensoras e ter iniciado a construção da fortaleza, foi obrigado a retirar-se graças a três capitães do seu exército que se revoltaram e, aliando-se ao rei de Ormuz, combateram os portugueses; (II) finalmente, em 1515, “O Conquistador do Oriente”, como foi apelidado, regressou a Ormuz e tomou a cidade definitivamente, sendo que foi nessa data que ficou concluída a construção do forte, batizado de Nossa Senhora da Conceição.

Reza uma publicação do historiador Rui Manuel Loureiro, a este propósito, que a presença portuguesa em Ormuz se iniciou alguns anos antes, em 1507, tendo-se depois estendido até 1622. Foi na primeira dessas datas que Afonso de Albuquerque – governador da Índia entre 1509 e 1515, ano da sua morte – liderou uma primeira investida à ilha. Porém, só “em 1515 é que efetuou a conquista” propriamente dita, e consequente ocupação, “do Reino de Ormuz”.

Em causa aquela que era “uma entidade autónoma da Pérsia” e que “possuía pequenos entrepostos territoriais dos dois lados do Golfo”. Dessa forma, “os portugueses apropriaram-se desse reino […] e Ormuz tornou-se uma espécie de protetorado da coroa portuguesa”, afirmou o historiador. Pese embora o rei de Ormuz, a quem coube até então a legítima governação local, fosse mantido “em funções” – ainda que, “provavelmente”, não tivesse qualquer “poder formal e absoluto”.

Foi também neste contexto que “durante este período de mais de 100 anos, os portugueses controlaram uma fortaleza na Ilha de Ormuz”, da qual “ainda hoje existem vestígios” e que “era a maior fortaleza europeia no continente asiático”, referiu este historiado, especialista do ISMAT – Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes, em Portimão.

A fortaleza, que pode ser visitada e ainda alberga vestígios portugueses, ficou com a forma de um pentágono, oito torres em volta e uma no centro, sendo reconhecida pela Pérsia como a obra de uma grande potência militar. Como a construção desta fortaleza teve várias fases, a sua arquitetura resultou na fusão entre o estilo Manuelino e um estilo Renascentista.

Hoje, após 1 hora e meia de viagem de barco de Bandar Abbas, pode visitar-se a ilha de Ormuz, em grande parte desabitada e com uma pequena vila piscatória. O nome “Bandar Abbas” quer dizer porto (Bandar) de Abbas, o rei da Pérsia Shah Abbas I, que fundou a cidade em 1622, a qual, de uma pequena vila piscatória se tornou o principal porto da Pérsia.

No seu extremo da ilha de Ormuz erguem-se, ainda majestosas, as ruínas do velho forte português. Pode aceder-se, por marcação, a uma visita guiada pela igreja e cisterna, duas estruturas impressionantes, e pela prisão, onde se podem observar ainda alguns objetos, mas infelizmente, refere uma das fontes citadas (blog “viajar entre viagens”), sem que o Governo reconheça este património glorioso, no estrangeiro, ajudando à sua conservação.

Mais tarde, os ingleses conseguiriam por fim tomar o forte português, tendo Shah Abbas relocalizado o porto para o continente (atual cidade de Bandar Abbas).

 

Fontes:

https://ensina.rtp.pt/artigo/fortaleza-de-ormuz-irao/

https://viajarentreviagens.pt/irao/ormuz-e-a-presenca-portuguesa-no-irao/

https://ensina.rtp.pt/artigo/afonso-de-albuquerque-conquistador/

https://expresso.pt/medio-oriente/conflito/2026-03-25-nossa-senhora-de-ormuz-uma-micro-historia-da-passagem-de-portugal-pelo-estreito-da-discordia-8b1f0659

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Afonso_de_Albuquerque_na_tomada_de_Ormuz_by_Jorge_Colaço.jpg

https://pt.euronews.com/2026/03/20/ormuz-a-ilha-de-importancia-estrategica-que-foi-controlada-pelo-imperio-portugues

https://cronicadotempo.blogspot.com/2011/08/forjaes-na-rota-azulejar-do-mestre_2673.html

Pesquisa: Carlos Gomes de Sá